quarta-feira, 7 de setembro de 2011
CAMPOS
Getulio Cardoso
Debaixo desse grande céu
vivem nossos pais.
Alguns acabam de apear do arreio
dessa curta viagem, a vida.
Antonio, Divino montaram
já faz tempo
no pangaré para os campos,
lugar que não gostaria de dizer lápide,
Tártaro, Hades, mas campo,
pois quando menino via
nos olhos de meu pai campos.
Este poema está presente em “O Carretel de Orfeu”, de Getulio Cardozo, livro que será lançado em 16/09/2011.
sábado, 9 de julho de 2011
terça-feira, 5 de julho de 2011
texto 41 - c. l. r. (lâminas / iluminuras)
c. l. r.
(lâminas / iluminuras)
texto 41
alcino mikael filho
quando o garçom trouxe a taça de sorvete que terminava em calda de caramelo, castanhas, biscoitos e cerejas, respirou aliviada. era uma figura humana, não havia mais dúvidas, que podia dar-se ao luxo de ter um companheiro – ele vestia uma bermuda larga, camiseta sem mangas e sandálias rasas – que a levava ao clube para um drinque em meigo dia. escolhera sorvete porque sorvete sempre lhe parecera uma impossibilidade. derramar garganta abaixo tantos sabores, tanta fartura, tantas cores curvas! bem na verdade, sentia um pouco de nojo de coisa tão viva, mas não tinha que se comprometer com a vida? não tinha que se limpar em suas próprias gorduras? estava com o cabelo muito curto – cabeça nua, espírito cheio de palavras cruas, escreveu numa noite em que sonhou ser, não sabia bem, medéia, a medusa - o que, de certa forma, era uma traição aos modos das meninas, por isso muito ser esforçava para ser feminina! ele não gostaria de uma ou outra covinha, de doces curavas? falava de um livro que seria bom que ela lesse, quando, quase em lágrimas, tomou consciência de sua tragédia. a cadeira em que estava sentada, perto da piscina era muito alta para uma moça nanica! os pés não chegavam ao chão, os seus braços eram curtos demais para que suas mãos tocassem a colher do sorvete que derretia sem que tivesse provado de suas coléricas delícias! vendo-se numa fria – a vida não era mesmo coisa viável, era uma ferida que sempre se abria, na frente de qualquer um, até mesmo diante do homem que a espremia, diante do sol que comia as sombras que os protegiam! tentou o sorriso, como se, ao acompanhar o raciocínio do que ele falava, houvesse se esquecido do sorvete e por isso desmanchava, virava água na vasilha. ser mulher, ser coisa humana, implicava tantos suplícios! quando voltasse para casa – sim, estava programado – , vingar-se-ia de quem o choro que nela mordia impedira. podia pedir-lhe licença para ir ao toalete, mas chegar até o outro lado do mundo com pernas diminutas, sendo observada por gente que passava em traje de banho, com copos nas mãos lívidas! quando se lembrou que dali visitariam a avó dele quase desmaiou. era uma mentira que no mundo não cabia, dissera ao homem que visitava no consultório, que as suas cantigas entupidas ouvia, mas ali, ao lado do moço gordo que a comovia, tinha que aguentar calada a tortura que lhe ocorria. se pelo menos tivesse pedido um drinque que a deixasse relaxada, tranquila! para que tanto golpe da vida?, perguntou-se entristecida. fora até ele com planos de mostrar-lhe que era uma moça desembaraçada, esportiva, e ali estava, uma anã doendo na volta do dia! nem mesmo ele poderia salvá-la das arapucas que sempre acabava erguendo em volta de seu espírito tecido longe da alegria? quando finalmente conseguiu tocar na taça o sorvete era bebida. um último golpe? a mão, depois do hercúleo esforço, que levara à massa derretida, começou a escorrer rumo à piscina!
MIKAEL FILHO, Alcino. c.l.r. (lâminas/ iluminuras). São Paulo: Nativa, 2002.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
FOTOGRAFIA DE CDA
Rafael Martins
Como quem se esquivasse
ele inclinou a cabeça
ante o flash que o atingiu
em cheio a testa
tomou parte do rosto
e expôs
o breve recorte
do que foi seu queixo
sua boca em concisão
e os pomos faciais
se desmanchando
e no entanto
o que se mostra
pouco importa
o que importa
é dizer-te desses olhos
que por esse ângulo
atrás dos óculos
quase não se vêem
deixam apenas entrever
Drummond
em sala ampla de sua consciência
jogando um xadrez profundo
- contra a morte?
não
- contra si
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| Capa da Revista Cult n° 62 (2003) |
quarta-feira, 29 de junho de 2011
DITIRAMBO
Edson Luiz da Silveira
ao filho Dimitri
Os peixinhos fazem festa
Nas águas do mar imenso
Como faunos com incenso
Perfumando uma floresta.
Um trilhão de borbulhinhas!
Treme a lebre que ri!
Num coral de criancinhas
Celebremos o Dimitri!
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| Ilustração por Edson Luiz da Silveira |
segunda-feira, 25 de abril de 2011
8 ½, A ALMA LEVE DE FELLINI
Rafael Martins
Pense na seguinte cena: Sol. Engarrafamento. Dentro do carro, um homem passa flanela no pára-brisa frontal. Todos os vidros fechados. Subitamente, as pequenas entradas de ar começam a soltar vapor para dentro do veículo. O homem não consegue interromper o processo nem baixar os vidros, as maçanetas também não respondem. Ao seu lado, todos os motoristas, com olhar imóvel, ignoram o seu desespero. Tudo é indiferença até o momento em que, sem explicação, ele chega ao capô do carro e segue adiante, de braços abertos, voando em direção às nuvens.
Assim começa Fellini 8 ½, com o preto e branco intenso da fotografia de Gianni Di Venanzo. Quarenta e sei anos depois, tudo parece ter surgido agora, tudo tem o frescor da novidade, tudo continua revolucionando.
8 ½ é totalmente autobiográfico, a começar pelo título. Este foi o oitavo filme dirigido por Fellini, e o “½” se refere à filmagem que ele fez de Mulheres e Luzes, quando dividiu a direção com Aberto Lattuada.
Toda a trama gira em torno de Guido, um cineasta em crise de inspiração que não consegue levar o seu filme adiante. Aos 43 anos, Guido, interpretado de modo impecável por Marcello Mastroianni, parece viver o seu momento crucial. A mulher, os jornalistas, a atriz, a igreja, o produtor do filme, a amante, todos têm perguntas para Guido, e cada um espera uma resposta diferente.
Com a atmosfera citada acima, este drama, nas mãos de outro diretor, teria tudo para ser asfixiante como um romance de Kafka. Mas não foi o que aconteceu, porque tanto na vida como na arte, é possível improvisar. Guido, o Alter Ego de Fellini, dribla seus credores morais e profissionais sem perder a pose com seus ternos finos e seu chapéu torto, e, quando parece não haver mais saída, existe a porta dos fundos que dá para o sonho.
A capacidade que Fellini tem para fundir sonho e realidade através de seu personagem nos fascina. Há momentos em que não se distingue um e outra, colocando o espectador em dúvida se Guido está vivendo ou sonhando ou simplesmente recordando o menino antigo.
Deste grande filme, além das revoluções, ficou sua lição de leveza. A verdade também pode não passar de uma mentira bem contada, semelhante ao cinema onde tudo acaba bem. O próprio Fellini costumava rotular-se como um “grande mentiroso”. Ainda assim, poucos cineastas foram tão honestos consigo mesmos, filmando aquilo que pensou, sentiu e viveu.
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